Se você tem ações paradas na carteira para o longo prazo, elas podem render um pouco mais sem que você venda nada. O mecanismo se chama aluguel de ações, e funciona de forma parecida com alugar um imóvel: você empresta o ativo por um período e recebe uma taxa por isso.
Como funciona o empréstimo de ações
A operação acontece dentro do sistema de empréstimo de títulos da B3. De um lado está o doador — você, que empresta as ações e recebe a remuneração. Do outro está o tomador, que paga para usar aqueles papéis por um tempo.
A B3 atua como contraparte central e exige garantias do tomador. Isso significa que, se o tomador quebrar, quem devolve suas ações é a própria estrutura da bolsa — e não você que fica no prejuízo.
Por que alguém quer alugar ações
O motivo mais comum é a venda a descoberto: o tomador acredita que a ação vai cair, então pega o papel emprestado, vende no mercado e espera recomprar mais barato depois para devolver. Há também usos operacionais, como cobrir liquidações e montar estruturas com opções.
É por isso que as ações mais alugadas costumam ser justamente as mais polêmicas do momento — aquelas em que muita gente aposta na queda.

Quanto rende na prática
A taxa é definida por oferta e demanda e cotada ao ano. Para papéis muito líquidos e sem disputa, ela costuma ser baixa — fração de 1% ao ano. Já em ações com forte pressão de venda a descoberto, a taxa pode subir bastante e chegar a valores de dois dígitos.
Na prática, para a maioria das carteiras o aluguel é um complemento modesto: um dinheiro que aparece sem esforço, não uma fonte principal de renda. Ainda assim, sobre uma posição que ficaria parada por anos, qualquer percentual adicional se acumula.
Você continua sendo o dono
Este é o ponto que mais gera dúvida. Durante o empréstimo:
- você continua com direito aos proventos — dividendos e JCP são repassados a você pelo tomador;
- a posição permanece na sua carteira para efeito de rentabilidade;
- o direito a voto, esse sim, fica com quem está de posse do papel.
Os riscos que existem de verdade
O risco de calote é baixo por causa da estrutura de garantias da B3, mas há pontos práticos a considerar:
- Liquidez: em contratos sem cláusula de devolução antecipada, você pode não conseguir vender a ação quando quiser.
- Preço: a ação continua oscilando normalmente — o aluguel não protege de queda.
- Pressão vendedora: ao emprestar, você fornece munição para quem aposta contra o papel que você tem.
Por isso o aluguel combina melhor com quem tem posição de longo prazo consolidada e não pretende vender no curto prazo.
Tributação e como começar
A remuneração recebida pelo aluguel é tributada e deve ser informada na declaração — a regra é diferente da que vale para o ganho de capital na venda de ações. Como o tratamento pode mudar, confirme a alíquota vigente com a sua corretora ou com um contador antes de considerar o valor líquido.
Para ativar, basta habilitar o aluguel no home broker da sua corretora e definir se quer disponibilizar toda a posição ou parte dela. A partir daí, o sistema faz o resto e a remuneração aparece nos extratos.
Vale a pena para você?
Perguntas frequentes
Perco os dividendos ao alugar minhas ações?
Não. Os proventos são repassados a você pelo tomador durante todo o período do empréstimo. O que fica com quem está de posse do papel é o direito a voto.
Existe risco de não receber as ações de volta?
O risco é baixo. A B3 atua como contraparte central e exige garantias do tomador, de modo que a devolução é assegurada pela estrutura da bolsa, não pelo tomador individualmente.
Posso vender a ação enquanto ela está alugada?
Depende do contrato. Em operações sem cláusula de devolução antecipada, você pode ficar impedido de vender até o fim do prazo — por isso a estratégia combina melhor com posições de longo prazo.
Quanto rende o aluguel de ações?
A taxa varia por oferta e demanda. Em papéis líquidos e sem disputa costuma ser uma fração de 1% ao ano; em ações com forte pressão de venda a descoberto pode subir bastante.
Se as ações ficariam paradas de qualquer forma, o aluguel é uma das poucas maneiras de extrair rendimento adicional sem aumentar o risco de crédito. Se você é do tipo que gira a carteira com frequência, a restrição de liquidez pode incomodar mais do que a taxa compensa. Como quase tudo em investimento em bolsa, a resposta depende do seu horizonte.

