Ação ON ou PN: diferenças, tag along e qual escolher

Operadores acompanhando painéis de cotações no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo

PETR3 ou PETR4? ITUB3 ou ITUB4? A empresa é a mesma, o balanço é o mesmo, mas os preços são diferentes e, às vezes, o dividendo também. A diferença está no que cada classe de ação dá ao acionista.

Escolher entre ações ON ou PN não é detalhe. A classe define se você vota, se recebe dividendo maior, o que acontece se o controle da empresa for vendido e quanto custa entrar e sair do papel.

Este artigo explica a diferença entre ON e PN pela lei, mostra o que os códigos 3, 4 e 11 significam, o que é tag along, como as maiores empresas da bolsa tratam cada classe e traz um exemplo com números reais para você decidir.

Operadores acompanhando painéis de cotações no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo
Foto: Rafael Matsunaga / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Ação ON ou PN: o que muda no direito do acionista

A ação ordinária (ON) dá direito a voto nas assembleias. Cada ação, um voto. Quem tem ON participa da eleição do conselho, da aprovação de fusões e das decisões que mudam o rumo da empresa.

A ação preferencial (PN) normalmente não vota, ou vota só em situações específicas. Em troca, recebe uma preferência econômica. A Lei 6.404/1976, a Lei das S.A., diz no artigo 17 que a preferência pode ser prioridade na distribuição de dividendos, prioridade no reembolso do capital ou a combinação das duas.

Para uma PN sem voto ser negociada em bolsa, o parágrafo 1º do mesmo artigo exige pelo menos uma destas vantagens:

  • direito a dividendo de no mínimo 25% do lucro líquido, com prioridade de pelo menos 3% do valor patrimonial da ação;
  • dividendo pelo menos 10% maior do que o pago a cada ação ordinária;
  • inclusão na oferta pública de venda de controle (tag along) nas mesmas condições das ON, com dividendo pelo menos igual ao delas.

Duas regras completam o quadro. As PN sem voto não podem passar de 50% do total de ações emitidas (artigo 15). E, se a companhia deixar de pagar os dividendos fixos ou mínimos das PN pelo prazo previsto no estatuto, que não pode passar de três exercícios seguidos, as preferenciais passam a votar até regularizar o pagamento (artigo 111).

Os códigos: 3, 4, 5, 6 e 11

O número no fim do código de negociação identifica a classe:

Final Classe Exemplos
3 Ordinária (ON) PETR3, ITUB3, BBAS3
4 Preferencial (PN) PETR4, ITUB4, BBDC4
5 e 6 Preferenciais classe A e B (PNA, PNB) Empresas com mais de uma classe de PN
11 Unit (pacote de ON e PN) SANB11, TAEE11, KLBN11

A unit é um certificado que reúne ações de classes diferentes e é negociado como um único papel. Segundo a B3, a SANB11 (Santander) tem 1 ON e 1 PN; a TAEE11 (Taesa) e a BPAC11 (BTG Pactual) têm 1 ON e 2 PN; a KLBN11 (Klabin) tem 1 ON e 4 PN. Ao comprar uma unit, você recebe os proventos de todas as ações do pacote.

Tag along: o que acontece quando o controle é vendido

Tag along é o direito de o minoritário vender suas ações junto com o controlador, quando o controle da companhia é vendido, por um preço proporcional ao que o controlador recebeu.

Pela lei (artigo 254-A da Lei das S.A.), quem compra o controle de uma companhia aberta precisa fazer oferta pública para as demais ações com direito a voto, pagando no mínimo 80% do valor pago por ação do bloco de controle. A regra legal cobre as ON. As PN só têm tag along se o estatuto conceder.

Os segmentos de listagem da B3 elevam esse piso. Conforme o comparativo da própria bolsa:

Segmento Classes permitidas Tag along
Novo Mercado Somente ON 100% para as ON
Nível 2 ON e PN (com direitos adicionais) 100% para ON e PN
Nível 1 ON e PN 80% para as ON (mínimo legal)
Básico ON e PN 80% para as ON (mínimo legal)

Na prática: se o controlador vende suas ações a R$ 50 cada, o dono de ON com tag along de 80% tem garantia de oferta a R$ 40; com 100%, de R$ 50. O dono de PN sem tag along não tem garantia nenhuma. Ele continua sócio da empresa sob o novo controlador, pelo preço que o mercado quiser pagar. No Nível 2, as PN ainda votam em temas críticos, como fusões e contratos entre controlador e companhia, segundo a B3.

Exemplos reais: Petrobras, Itaú, Bradesco e Banco do Brasil

Empresa Códigos Segmento Tag along ON / PN Dividendo ON x PN
Petrobras PETR3 / PETR4 Nível 2 (desde maio de 2018) 100% / 100% PN tem prioridade no dividendo mínimo; as duas classes receberam o mesmo valor por ação em 2023 e 2024
Itaú Unibanco ITUB3 / ITUB4 Nível 1 80% / 80% Mesmo valor por ação
Bradesco BBDC3 / BBDC4 Nível 1 100% / 80% PN recebe 10% a mais
Banco do Brasil BBAS3 Novo Mercado 100% (só existe ON) Não há PN

Repare que não existe padrão. Na Petrobras, as duas classes têm a mesma proteção e vêm recebendo o mesmo provento. No Itaú, o provento é igual, e a diferença fica no voto e na liquidez. No Bradesco, a PN paga 10% a mais, mas tem tag along menor. No Banco do Brasil, nem há escolha: só existe ON, como em toda empresa do Novo Mercado.

Monitor exibindo gráfico de cotações de ações em queda e alta
Foto: Nicholas Cappello / Unsplash

Exemplo numérico: a PN paga 10% a mais e rende menos

Bradesco, cotações de 21 de setembro de 2026 em portais de cotação: BBDC3 (ON) a R$ 16,01 e BBDC4 (PN) a R$ 18,18. Proventos pagos por ação nos 12 meses anteriores: R$ 1,4140 na ON e R$ 1,5485 na PN, cerca de 10% a mais, como manda o estatuto.

O rendimento em dividendos (dividend yield) é o provento dividido pelo preço:

  • ON: 1,4140 ÷ 16,01 = 8,8% ao ano;
  • PN: 1,5485 ÷ 18,18 = 8,5% ao ano.

Com R$ 10.000, você compraria 624 ON (R$ 9.990) e receberia R$ 882 no ano, ou 550 PN (R$ 9.999) e receberia R$ 852. A PN paga mais por ação, mas custava 13,6% a mais, e a vantagem de 10% no dividendo não cobre essa diferença. Nesse dia, a ON rendia mais e ainda tinha tag along maior.

A lição não é “compre sempre a ON”. É que o dividendo por ação não decide nada sozinho. O que importa é o provento em relação ao preço pago, e o spread entre as classes muda com o tempo. No Itaú, em janeiro de 2026, a PN custava R$ 39,70 e a ON, R$ 36,70, com proventos iguais de R$ 4,71 nos 12 meses; a ON rendia 12,8% contra 11,9% da PN só por ser mais barata. Meses depois, a relação de preços entre as duas já era outra. Antes de comprar, refaça a conta com o preço do dia.

Liquidez e spread: o custo invisível de escolher a classe errada

Por que a PN costuma ser mais cara se tem menos direitos? Liquidez. Nas grandes empresas com controlador definido, a PN historicamente concentrou o giro do mercado, e é a classe que entra no Ibovespa. Fundos e estrangeiros compram a classe mais líquida, o que sustenta o preço.

Os números de 21 de setembro de 2026 dão a dimensão. A liquidez média diária da ITUB4 passava de R$ 1 bilhão, contra cerca de R$ 79 milhões da ITUB3. A PETR4 girava cerca de R$ 2,2 bilhões por dia, contra R$ 577 milhões da PETR3. A BBDC4, R$ 733 milhões, contra R$ 117 milhões da BBDC3.

Para quem compra e segura por anos, um papel com dezenas de milhões por dia é líquido o suficiente. Para quem opera com frequência, a diferença aparece no spread entre a melhor oferta de compra e a de venda: quanto menor o giro, maior o spread, e esse custo é pago a cada ordem enviada pelo home broker.

As units nasceram para resolver esse problema. Em vez de dividir a liquidez entre ON e PN, a empresa concentra os negócios em um único papel que carrega as duas classes.

Como escolher entre ON e PN na prática

  1. Confira o segmento de listagem e o tag along de cada classe. A informação está no site da B3 e no estatuto da companhia, na área de relações com investidores.
  2. Compare o provento por ação das duas classes nos últimos anos. Iguais? PN com 10% a mais? Prioridade só no mínimo?
  3. Divida o provento pelo preço de cada classe. É o rendimento real de cada uma, e ele muda com o spread entre os papéis.
  4. Olhe a liquidez média diária. Se você vai comprar e segurar, a classe menos líquida serve; se vai girar, prefira a mais líquida ou a unit.
  5. Avalie o risco de venda de controle. Em empresa com controlador que pode vender, o tag along vale mais; em estatal ou empresa sem controlador definido, ele pesa menos na decisão.
  6. Só então compare com os fundamentos da empresa. A classe certa de uma empresa ruim continua sendo uma empresa ruim; use os critérios de análise fundamentalista antes de qualquer escolha de classe.

Quem monta uma carteira de dividendos tende a olhar mais o item 3; quem investe pensando em governança e proteção, os itens 1 e 5. Para quem ainda está começando, o guia de como investir na bolsa de valores mostra o caminho antes desta decisão.

Perguntas frequentes

Ação PN nunca tem direito a voto?

Tem em situações específicas. Pela Lei das S.A., se a empresa deixar de pagar os dividendos fixos ou mínimos das PN pelo prazo do estatuto (no máximo três exercícios seguidos), elas passam a votar até o pagamento. No Nível 2 da B3, as PN votam em temas como fusões e contratos com o controlador.

O que é tag along de 100%?

É a garantia de que, se o controle for vendido, o minoritário poderá vender suas ações pelo mesmo preço por ação pago ao controlador. A lei exige 80% para as ON; o Novo Mercado e o Nível 2 exigem 100%, e no Nível 2 a garantia vale também para as PN.

Unit é melhor do que ON ou PN?

Não é melhor nem pior: é um pacote. Você recebe os direitos e os proventos das ações que a compõem, na proporção definida pela empresa. A vantagem prática é a liquidez concentrada em um só código.

PN paga mais dividendos do que ON?

Depende do estatuto. Algumas empresas pagam 10% a mais para a PN, como o Bradesco; outras pagam o mesmo valor por ação, como o Itaú e a Petrobras. O que decide o rendimento é o provento dividido pelo preço de cada classe.

Qual a diferença entre final 5 e final 6?

São classes diferentes de preferenciais (PNA e PNB), com direitos definidos no estatuto de cada empresa. Antes de comprar, leia no site de relações com investidores o que cada classe recebe.

ON ou PN é uma escolha de direitos, não de qualidade da empresa. Se o provento é igual, compare preço e liquidez. Se a PN paga mais, veja se o preço já cobra essa vantagem. E se houver chance de venda de controle, dê peso ao tag along. Para diversificar além do Brasil, o mesmo raciocínio de ler os direitos do papel vale para os BDRs de empresas estrangeiras.

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