Tesouro IPCA+, Prefixado ou Selic: qual escolher e quando

Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sede do Tesouro Nacional

Tesouro IPCA+ ou Selic? Prefixado a 14% não é melhor que IPCA + 7%? A dúvida é comum porque os três títulos do Tesouro Direto são igualmente seguros — todos são dívida do governo federal — mas funcionam de formas diferentes. E a diferença aparece na hora errada: quando você precisa do dinheiro antes do vencimento.

Um título que rende 14% ao ano pode mostrar saldo menor do que o investido semanas depois da compra. Não é erro do aplicativo. É a marcação a mercado, e entender essa conta separa uma escolha boa de um susto.

Este artigo mostra como cada título remunera, as taxas de setembro de 2026, a conta da marcação a mercado, custos e imposto — e fecha com um critério simples: o título certo depende da data em que você vai usar o dinheiro.

Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sede do Tesouro Nacional
Foto: Daniel Costa / Unsplash

Como cada título do Tesouro Direto remunera

Tesouro Selic: pós-fixado, quase sem oscilação

O Tesouro Selic rende a taxa Selic do dia, todos os dias úteis, mais um pequeno ágio (em setembro de 2026, Selic + 0,07% ao ano no vencimento 2031). Como acompanha a taxa dia a dia, o preço praticamente não oscila.

Desde maio de 2026 existe também o Tesouro Reserva: 100% da Selic, aplicação a partir de R$ 1, resgate a qualquer hora e sem marcação a mercado, vendido por enquanto pelo Banco do Brasil. Os dois cumprem o mesmo papel; a comparação com o CDB está em Tesouro Selic ou CDB com liquidez diária para a reserva.

Tesouro Prefixado: taxa travada, preço que oscila

No Prefixado você sabe no dia da compra quanto vai receber no vencimento: cada título paga R$ 1.000 na data final, e a taxa contratada define o preço de hoje. Comprou a 13,79% ao ano e levou até o fim, recebeu 13,79% ao ano.

O problema é o meio do caminho: se as taxas de mercado sobem depois da compra, o seu título vale menos hoje; se caem, vale mais. É isso que a marcação a mercado registra no extrato.

Tesouro IPCA+: inflação mais uma taxa real

O IPCA+ paga a variação do IPCA mais uma taxa fixa (em setembro de 2026, entre 7,2% e 7,6% ao ano, conforme o vencimento). É o único dos três que garante ganho acima da inflação para quem leva até o fim. Também oscila com a marcação a mercado — e quanto mais longo o vencimento, mais forte a oscilação. Vale ler antes o que é inflação e como proteger seu dinheiro.

RendA+, Educa+ e juros semestrais

RendA+ e Educa+ são variações do IPCA+ com fluxo de pagamentos: o RendA+ acumula até a data de conversão e depois paga 240 parcelas mensais, por 20 anos, corrigidas pela inflação; o Educa+ paga 60 parcelas, por 5 anos, a partir de 15 de janeiro do ano escolhido. Explicamos cada um em como funciona o Tesouro RendA+ e em como investir para os filhos.

Prefixado e IPCA+ também têm versões “com juros semestrais”, que pagam um cupom a cada seis meses. O cupom para de render dentro do título e paga Imposto de Renda a cada semestre. Para quem está acumulando, a versão sem cupom é mais eficiente; a com cupom serve a quem já vive de renda.

Taxas do Tesouro Direto em setembro de 2026

Cotações de compra de 18 a 21 de setembro de 2026, arredondadas. Elas mudam todos os dias; antes de comprar, confira a tabela atual em preços e taxas no site do Tesouro Direto.

Título Vencimento Taxa de compra (a.a.) Oscila antes do vencimento?
Tesouro Reserva 01/01/2036 100% da Selic Não
Tesouro Selic 2031 01/03/2031 Selic + 0,07% Quase nada
Tesouro Prefixado 2029 01/01/2029 13,79% Sim
Tesouro Prefixado 2032 01/01/2032 14,10% Sim, mais
Tesouro IPCA+ 2032 15/08/2032 IPCA + 7,57% Sim
Tesouro IPCA+ 2040 15/08/2040 IPCA + 7,27% Sim, mais
Tesouro IPCA+ 2050 15/08/2050 IPCA + 7,17% Sim, muito

Com a Selic em 13,75% ao ano (Copom de 16 de setembro de 2026) e o IPCA em 4,22% nos 12 meses até agosto (IBGE), o IPCA+ 2032 paga hoje algo como 12,1% nominais ao ano — menos que o Prefixado 2032. A diferença é o seguro: se a inflação subir, o IPCA+ acompanha; o Prefixado, não.

Marcação a mercado: a conta que explica a oscilação

O preço de um título é o valor presente do que ele vai pagar. Pegue um Prefixado hipotético de 2 anos comprado a 13% ao ano. Ele paga R$ 1.000 no vencimento, então o preço de compra é:

R$ 1.000 ÷ (1,13 × 1,13) = R$ 1.000 ÷ 1,2769 = R$ 783,15

Se no dia seguinte o mercado passa a exigir 15% ao ano para esse prazo, o mesmo R$ 1.000 futuro vale hoje:

R$ 1.000 ÷ (1,15 × 1,15) = R$ 1.000 ÷ 1,3225 = R$ 756,14 — queda de 3,4% no seu extrato.

Se a taxa cair para 11%, ocorre o contrário: R$ 1.000 ÷ 1,2321 = R$ 811,62, alta de 3,6%. Nada mudou no que o título vai pagar; mudou quanto vale hoje.

Um ano depois, com a taxa ainda em 15%, o título vale R$ 1.000 ÷ 1,15 = R$ 869,57: ganho de 11,0% sobre os R$ 783,15 pagos, abaixo dos 13% contratados. No vencimento, porém, qualquer cenário paga os mesmos R$ 1.000: 27,7% em dois anos, exatamente 13% ao ano.

Quanto mais longo o vencimento, maior o efeito. No Prefixado 2032 (pouco mais de 5 anos), uma alta de 1 ponto na taxa derruba o preço em cerca de 4,5%. Em um IPCA+ 2050, a mesma variação move o preço em cerca de 20%.

Quando a oscilação não importa

Levando o título até o vencimento, a marcação a mercado é só um número no extrato: você recebe o contratado. A oscilação só vira perda ou ganho real na venda antecipada. Por isso a pergunta certa não é “qual título rende mais”, e sim “quando vou precisar desse dinheiro”.

Custos, imposto e liquidez

Taxa de custódia da B3: 0,20% ao ano sobre o valor investido. Tesouro Selic e Tesouro Reserva são isentos até R$ 10 mil por CPF; acima disso, a taxa incide só sobre o excedente. RendA+ e Educa+ têm custódia zero para quem leva até a conversão (dentro de limites de renda mensal); quem resgata antes paga uma taxa que diminui com o tempo de aplicação. A tabela está em tarifas do Tesouro Direto na B3.

Imposto de Renda: tabela regressiva sobre o rendimento, descontada no resgate ou no vencimento: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360, 17,5% de 361 a 720 e 15% acima de 720 dias.

IOF: só em resgates com menos de 30 dias, com alíquota regressiva sobre o rendimento. A partir do 30º dia, zero.

Liquidez: o Tesouro recompra qualquer título todos os dias úteis, pelo preço de mercado do momento, e o dinheiro cai na conta da corretora em até um dia útil. Liquidez, portanto, não é o problema; o preço no dia do resgate é. O básico de indexadores e prazos está em renda fixa para iniciantes.

Tesouro IPCA+, Prefixado ou Selic: qual escolher para cada objetivo

O critério é a data de uso do dinheiro e a certeza que você tem dela.

Objetivo Título indicado Por quê
Reserva de emergência, sem data Tesouro Selic ou Tesouro Reserva Não oscila; resgate a qualquer momento sem perda de preço
Meta com data em 1 a 3 anos Prefixado ou IPCA+ com vencimento perto da data Taxa travada; oscilação não importa se levar até o fim
Meta em 3 a 8 anos exposta à inflação IPCA+ com vencimento próximo da data Protege o poder de compra do valor guardado
Aposentadoria, mais de 10 anos IPCA+ longo ou RendA+ Ganho real garantido no vencimento
Educação dos filhos Educa+ ou IPCA+ com vencimento no ano da faculdade Fluxo mensal corrigido pelo IPCA no período certo

O Prefixado compensa se você acredita que a Selic vai cair mais rápido do que o mercado espera, ou se a taxa travada já resolve a meta. A 13,79% ao ano até 2029, R$ 10 mil viram cerca de R$ 13.400 brutos em pouco mais de dois anos. CDB, LCI e LCA cobrem parte desses objetivos, às vezes com taxa melhor; a comparação líquida está em CDB, LCI ou LCA: qual rende mais.

Erros comuns na escolha do título

  • Comprar IPCA+ 2045 ou 2050 para dinheiro de dois anos. O título oscila muito e o resgate pode cair em um mês de taxas altas. Dinheiro de dois anos pede vencimento de dois anos.
  • Deixar a reserva de emergência em Prefixado. A emergência não escolhe o dia; o preço do título, sim.
  • Comparar taxa nominal com taxa real. 14,10% e IPCA + 7,57% só são comparáveis somando a inflação esperada à taxa real.
  • Trocar de título toda vez que a taxa muda. Cada venda antecipada realiza a marcação a mercado e adianta o IR.

Como decidir em quatro passos

  1. Defina a data. Sem data: Selic ou Reserva. Com data: siga adiante.
  2. Escolha o vencimento igual ou anterior à data. Vencer antes é aceitável (o dinheiro fica na Selic até o uso); vencer depois obriga a vender antecipado.
  3. Decida entre nominal e real. Meta em reais fixos (uma parcela, uma entrada já negociada): Prefixado. Meta que acompanha preços (faculdade, aposentadoria): IPCA+.
  4. Faça a conta líquida. Acima de dois anos, a alíquota cai a 15%; na Selic e no Reserva, até R$ 10 mil não há custódia. Veja um modelo em quanto rende R$ 10 mil na poupança, no CDB e no Tesouro Selic.

Perguntas frequentes

Tesouro IPCA+ ou Selic: qual rende mais em 2026?

Para quem resgata em menos de dois anos, o Tesouro Selic, porque não oscila e a Selic está em 13,75% ao ano. Para quem leva um IPCA+ até o vencimento, depende da inflação do período: com IPCA de 4,22%, IPCA + 7,57% equivale a cerca de 12,1% nominais. A vantagem do IPCA+ é a proteção, não a taxa de hoje.

Posso perder dinheiro no Tesouro Direto?

Levando até o vencimento, não: você recebe o contratado. Vendendo antes um Prefixado ou IPCA+, pode receber menos do que investiu se as taxas subiram desde a compra. No Tesouro Selic e no Tesouro Reserva esse risco é praticamente inexistente.

O que é marcação a mercado no Tesouro Direto?

É a atualização diária do preço do título pelo que o mercado pagaria por ele hoje. Quando as taxas sobem, Prefixados e IPCA+ caem de preço; quando caem, sobem. Só afeta quem vende antes do vencimento.

Qual o valor mínimo para investir no Tesouro Direto?

A fração mínima é 1% de um título, respeitado o mínimo de R$ 30. No Tesouro Selic, cujo título vale perto de R$ 20 mil em setembro de 2026, 1% dá cerca de R$ 200. No Tesouro Reserva, a aplicação começa em R$ 1.

O que levar deste artigo

Os três títulos são igualmente seguros; o que muda é como o preço se comporta antes do vencimento. Selic e Reserva para o que não tem data. Prefixado para meta em reais fixos. IPCA+ para o que precisa manter poder de compra por anos. E a regra que evita quase todos os erros: o vencimento do título nunca deve ser mais longo do que o prazo do seu objetivo.

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