Como investir para os filhos: Tesouro Educa+ e outras opções

Mãe e filho lendo um livro juntos em uma biblioteca

Quem pesquisa como investir para os filhos costuma começar pela pergunta errada: “qual produto?”. A pergunta certa vem antes: para quê, quando e em nome de quem. Faculdade aos 18, intercâmbio aos 16 ou um patrimônio sem data pedem produtos diferentes — e a conta de ITCMD e Imposto de Renda muda conforme o CPF em que o dinheiro fica.

A boa notícia é que o tempo trabalha a favor. Uma criança de 1 ano tem 17 anos de juros compostos pela frente, e isso vale mais do que escolher a aplicação perfeita.

Este guia mostra a conta do começar cedo, as opções reais em 2026, o que muda ao investir no CPF do filho, uma tabela comparativa e os erros que mais custam.

Mãe e filho lendo um livro juntos em uma biblioteca
Foto: Adam Winger / Unsplash

Por que começar cedo: a conta dos juros compostos

Suponha R$ 200 por mês durante 18 anos, a 6% ao ano acima da inflação — taxa real próxima do que o Tesouro IPCA+ entrega hoje depois do imposto. O resultado, em valores de hoje, é de cerca de R$ 76 mil. Você depositou R$ 43.200; os outros R$ 33 mil são juros.

Se os R$ 200 começarem quando a criança fizer 8 anos, sobram 10 anos de aportes: cerca de R$ 32,5 mil. Metade do tempo, menos da metade do resultado. E se o dinheiro render 3% reais, os 18 anos entregam R$ 57 mil, não R$ 76 mil. A taxa importa; o tempo importa mais. O mecanismo está em juros compostos: por que enriquecem quem investe.

Ressalva: a reserva de emergência da família vem primeiro, ou o dinheiro do filho vira o caixa dos imprevistos. Veja por que criar a reserva antes de investir.

Defina o objetivo antes de escolher o produto

  • Faculdade ou curso técnico: data conhecida (o ano em que o filho completa 18), gasto mensal por 4 ou 5 anos, corrigido pela inflação. Perfil do Tesouro Educa+ ou do IPCA+ com vencimento próximo.
  • Intercâmbio ou primeiro carro: valor único, data aproximada. IPCA+ ou CDB/LCI com vencimento na data.
  • Patrimônio inicial, sem data: horizonte longo. Cabe uma parcela em renda variável.

O que não funciona é um único “pote” sem finalidade: ele acaba usado para o que aparecer primeiro.

As opções para investir para os filhos em 2026

Tesouro Educa+

É um título público criado para a educação. Na fase de acumulação, você compra frações a partir de cerca de R$ 30 e o dinheiro rende IPCA mais uma taxa fixa (em setembro de 2026, perto de IPCA + 7,3% ao ano no Educa+ 2040). Na data de conversão, o título passa a pagar 60 parcelas mensais, por 5 anos, corrigidas pelo IPCA, a partir de 15 de janeiro do ano escolhido. Há um título para cada ano de início de pagamento (em setembro de 2026, até 2044): escolha o ano em que o filho deve entrar na faculdade.

A conta: para receber 60 parcelas de R$ 1.000, em valores de hoje, a partir de 2041, a IPCA + 7,3% você precisaria aplicar cerca de R$ 17,5 mil hoje — ou algo como R$ 160 por mês durante 15 anos, antes do IR.

Regras: custódia da B3 zerada para quem leva até a conversão e recebe até 4 salários mínimos por mês; no resgate antecipado há uma taxa anual que cai com o tempo (de 0,50% nos primeiros anos a 0,10% após 14 anos), e cada aporte tem carência de 60 dias. IR pela tabela regressiva (15% acima de 720 dias). Antes da conversão, o título oscila com a marcação a mercado, como qualquer IPCA+. Detalhes na página oficial do Tesouro Educa+.

Tesouro IPCA+ comum

Protege contra a inflação do mesmo jeito, mas paga tudo no vencimento. Serve para intercâmbio, entrada de imóvel ou qualquer meta de valor único. Escolha o vencimento igual ou anterior à data de uso — o critério está em Tesouro IPCA+, Prefixado ou Selic: qual escolher. Custódia de 0,20% ao ano e IR regressivo.

CDB, LCI e LCA de longo prazo

Bancos emitem CDBs atrelados ao IPCA ou ao CDI com prazos de 3 a 5 anos, e LCI/LCA isentas de IR, cobertos pelo FGC até R$ 250 mil por CPF e instituição. A limitação é o prazo: exigem reinvestir várias vezes até a faculdade. Bom complemento; não substitui um título de 15 anos.

Previdência privada para menores

Seguradoras e bancos oferecem planos PGBL e VGBL em que a criança é a titular e o responsável faz os aportes. Como a criança não tem renda tributável, o formato usado é o VGBL, em que o IR incide só sobre o rendimento. A dedução do PGBL (até 12% da renda bruta) só serve a quem declara no modelo completo, e a dedução de aportes para dependentes tem condições específicas — confirme com um contador.

A favor: a tabela regressiva de IR chega a 10% após 10 anos, e o plano não passa por inventário — o valor vai direto ao beneficiário. O STF decidiu em dezembro de 2024 (Tema 1.214) que o ITCMD não incide sobre VGBL e PGBL na morte do titular; confirme como o seu estado aplica a decisão. Por isso muitos pais preferem o plano no próprio nome, com o filho como beneficiário. Contra: taxas. Administração acima de 1% ao ano corrói décadas de rendimento. Compare em previdência privada PGBL ou VGBL.

Fundos, ETFs e ações

Para o objetivo sem data e horizonte acima de 10 anos, uma fração pequena — 10% a 20% dos aportes — em ETFs de índice amplo ou ações tende a elevar o retorno esperado, ao custo de oscilação. ETFs de ações pagam 15% de IR sobre o ganho, sem isenção. Não coloque na bolsa o dinheiro da faculdade que começa em 3 anos.

Poupança

Com a Selic acima de 8,5%, rende 0,5% ao mês mais TR — cerca de 8,3% ao ano em setembro de 2026, contra uma Selic de 13,75%. Em 18 anos, é a distância entre R$ 57 mil e R$ 76 mil do exemplo inicial. Serve, no máximo, para o cofrinho da criança.

Em nome de quem investir: CPF do filho ou dos pais

Menor de idade pode ter CPF desde o nascimento e investir no Tesouro Direto e em CDBs, desde que a conta seja aberta pelo responsável legal em instituição que aceite menores — nem todas aceitam. A escolha do CPF muda três coisas.

Propriedade. Dinheiro no CPF do filho é do filho. Você administra até os 18 anos, mas não deve usar para outros fins, e aos 18 ele assume o controle. No CPF dos pais, o dinheiro é seu: mais controle, menos proteção.

Doação e ITCMD. Transferir dinheiro para o CPF do filho é doação. É isenta de Imposto de Renda para quem recebe, mas deve ser declarada pelos dois lados e está sujeita ao ITCMD, imposto estadual com alíquotas entre 2% e 8%. Muitos estados isentam doações até certo valor por ano; limite e alíquota variam — consulte a Secretaria da Fazenda do seu estado. No CPF dos pais não há doação agora, mas o patrimônio entra no inventário e, em caso de separação, na partilha.

Imposto de Renda. Se o filho é seu dependente, os investimentos e rendimentos dele entram na sua declaração.

Uma combinação comum: Educa+ ou IPCA+ no CPF do filho e previdência ou renda variável no CPF dos pais, com o filho como beneficiário.

Tabela comparativa: qual investimento para cada objetivo

Opção Liquidez Custo e tributação Melhor para
Tesouro Educa+ Diária após 60 dias; oscila até a conversão Custódia zero se levar até o fim; IR regressivo Faculdade em data conhecida
Tesouro IPCA+ Diária; oscila até o vencimento Custódia 0,20% a.a.; IR regressivo Meta de valor único com data
CDB / LCI / LCA Em geral só no vencimento Sem taxa; IR regressivo (LCI/LCA isentas) Metas de 2 a 5 anos
Previdência VGBL Após carência Taxas do plano; IR até 10% após 10 anos Longo prazo e sucessão
ETFs / ações Diária; oscila muito Taxa do ETF; 15% sobre o ganho Fração pequena, mais de 10 anos
Poupança Imediata; rende só no aniversário Sem taxa; isenta Cofrinho da criança

Como decidir: passo a passo

  1. Feche a reserva de emergência da família antes do primeiro aporte para o filho.
  2. Escolha o objetivo e a data. Faculdade: ano em que o filho completa 18. Sem data: patrimônio.
  3. Decida o CPF. Educação no CPF do filho; patrimônio e sucessão no CPF dos pais, com beneficiário.
  4. Escolha o produto pela data. Educa+ ou IPCA+ para a educação; CDB/LCI para metas de até 5 anos; ETFs só no horizonte longo.
  5. Automatize o aporte e revise uma vez por ano.

Erros que custam caro

  • Deixar tudo na poupança. Custa cerca de um quarto do resultado em 18 anos.
  • Assinar previdência cara. Taxas altas anulam a vantagem tributária.
  • Resgatar para outras coisas. Reforma, viagem, cartão. Se o dinheiro tem nome, precisa ter regra.
  • Comprar título mais longo que o objetivo. Educa+ 2044 para quem entra na faculdade em 2036 obriga a vender antes, com marcação a mercado.

Como envolver a criança

Investimento que o filho não conhece é só um número na conta. Mostre o extrato uma vez por ano, explique de onde vem o rendimento e conecte com o dinheiro que ele já administra: a mesada e, na adolescência, uma conta digital para menor de idade. Aos 18, ele deve receber um patrimônio e um hábito. Mais ideias em como criar uma cultura de economia e investimentos em casa.

Perguntas frequentes

Qual o melhor investimento para filhos em 2026?

Para a faculdade, o Tesouro Educa+ ou o Tesouro IPCA+ com vencimento no ano de uso: protegem contra a inflação e custam pouco. Para patrimônio sem data, combine renda fixa longa com uma fração em ETFs.

Menor de idade pode investir no Tesouro Direto?

Sim, com CPF e conta aberta pelo responsável legal em corretora ou banco que aceite menores. O responsável opera a conta até a maioridade; o patrimônio é da criança.

Quanto investir por mês para a faculdade do filho?

Depende do custo do curso e do prazo. Como referência, a IPCA + 7,3% ao ano, cerca de R$ 160 por mês durante 15 anos compram 60 parcelas de R$ 1.000 em valores de hoje, antes do IR. Com 10 anos de prazo, o aporte sobe para perto de R$ 290.

Investir no nome do filho paga imposto de doação?

Pode pagar. A transferência é doação sujeita ao ITCMD, imposto estadual com alíquota entre 2% e 8%. A maioria dos estados isenta doações de pequeno valor, mas o limite varia; confirme na Secretaria da Fazenda do seu estado e declare a doação no IR dos dois lados.

Previdência privada para filho vale a pena?

Vale quando o plano tem taxas baixas e o objetivo é de muito longo prazo ou sucessório: IR de 10% após 10 anos e nada de inventário. Com taxas altas, o Tesouro IPCA+ costuma render mais.

O que levar deste artigo

Comece cedo, mesmo com pouco: R$ 200 por mês por 18 anos viram cerca de R$ 76 mil a 6% acima da inflação. Defina o objetivo, escolha o produto pela data e decida o CPF sabendo o que muda em doação, ITCMD e sucessão. Fuja de taxas altas e da poupança. E mostre o extrato para a criança: o hábito vale tanto quanto o saldo.

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