Como precificar um produto ou serviço: cálculo do preço de venda

Brigadeiros gourmet com granulado em uma tigela branca em formato de coração

Quem faz brigadeiro gourmet, costura ou presta serviço em casa costuma chegar ao preço por um de dois caminhos: olha o concorrente ou dobra o custo do material. Os dois parecem razoáveis. Os dois costumam esconder prejuízo.

Saber como precificar um produto ou serviço é somar tudo o que a venda precisa pagar (material, seu tempo, contas fixas, taxas e imposto) e só então definir quanto quer que sobre. Feito na ordem errada, o “lucro” que aparece na planilha é, na verdade, o seu salário não pago.

Este artigo mostra o cálculo do preço de venda com a conta aberta: uma caixa de brigadeiro gourmet, do custo ao preço final, e um serviço cobrado por hora. No fim, o ponto de equilíbrio, o erro da promoção que zera a margem e um passo a passo para chegar ao seu preço.

Brigadeiros gourmet com granulado em uma tigela branca em formato de coração
Foto: Felippe Lopes / Unsplash

Os três erros clássicos de quem precifica no chute

Dobrar o custo. Multiplicar o material por dois ignora energia, taxa da maquininha, imposto e o seu tempo. Em produto artesanal, o material costuma ser menos da metade do custo real; o exemplo adiante mostra uma caixa de brigadeiro vendida pelo dobro do material que termina em prejuízo.

Copiar o concorrente. O preço dele foi feito com os custos dele, o volume dele e, muitas vezes, com o mesmo chute. Se ele não paga o próprio salário, copiar é perder dinheiro sem saber.

Esquecer o próprio tempo. Trabalhar de graça no início parece aceitável, mas contamina o preço para sempre: quando você precisar contratar alguém ou descansar, a conta não fecha. É o erro que mais trava quem tenta transformar um hobby em fonte de renda.

O que entra no preço de venda: custos diretos, fixos, mão de obra, taxas e impostos

Separe os custos em quatro grupos, porque cada um entra no cálculo de um jeito.

Custo direto (variável). O que é consumido em cada unidade: ingredientes, tecido, embalagem. Calcule dividindo o preço da compra pelo rendimento (quantas caixas saem de uma lata de leite condensado).

Custos fixos rateados. Gás, energia, água, internet, desgaste de equipamentos, aluguel, a mensalidade do MEI. Some tudo no mês e divida pela quantidade que você realmente produz, não pela que gostaria.

Mão de obra. O seu tempo, medido em valor da hora e multiplicado pelos minutos que cada unidade consome, do preparo à embalagem.

Taxas e impostos. O que é percentual do preço (comissão de marketplace, taxa de cartão, Simples Nacional) entra na fórmula como porcentagem. O que é valor fixo em reais (o DAS do MEI, R$ 82,05 no comércio e R$ 86,05 em serviços em 2026) entra no rateio de fixos. As taxas de cartão ficam na casa de 1% a 1,4% no débito e 3% a 3,5% no crédito à vista nas tabelas públicas de setembro de 2026; veja como escolher a maquininha de cartão para MEI. Em marketplace, a fatia é maior: a Shopee cobra 20% mais R$ 4 por item abaixo de R$ 80, como detalhado em vender na Shopee: taxas e lucro.

Como calcular o valor da sua hora

Comece pelo salário que você quer tirar por mês. Depois conte as horas que realmente rendem produção ou atendimento, não as horas disponíveis: prospecção, orçamento, compras, deslocamento e administração ocupam de 30% a 50% do tempo de quem trabalha sozinho.

Exemplo: R$ 3.000 por mês, 160 horas disponíveis, 100 produtivas. Valor da hora: R$ 3.000 ÷ 100 = R$ 30. Quem divide por 160 cobra R$ 18,75 e fecha o mês com R$ 1.875 de mão de obra em vez de R$ 3.000.

Margem de lucro ou markup: a diferença que muda o resultado

Markup é quanto você multiplica o custo para chegar ao preço. Margem é a fatia do preço que sobra como lucro. Os dois usam a palavra “20%” e dão resultados diferentes.

Preço = custo unitário ÷ (1 − (% taxas + % impostos + % lucro))

Custo unitário é a soma de material, mão de obra e fixos rateados; no denominador entram só os itens que são porcentagem do preço. O markup resultante é preço ÷ custo. Aplicar “20% sobre o custo” dá markup de 1,20 e margem menor que 20%, porque as taxas são descontadas do preço, não do custo.

Exemplo completo: brigadeiro gourmet, da planilha ao preço

Caixa com 12 brigadeiros, 200 caixas por mês, vendedora MEI que recebe no Pix e no cartão. Os custos são hipóteses para mostrar o método; troque pelos seus.

Item Cálculo Por caixa
Ingredientes leite condensado, creme de leite, chocolate, manteiga, confeitos R$ 9,50
Embalagem caixa, forminhas, laço R$ 3,20
Mão de obra 20 minutos a R$ 30 por hora R$ 10,00
Fixos rateados R$ 400/mês (gás, energia, utensílios, internet, DAS de R$ 82,05) ÷ 200 caixas R$ 2,00
Custo unitário soma R$ 24,70
Taxas de pagamento 3,5% do preço (mix de Pix e cartão) percentual
Lucro desejado 20% do preço percentual
Preço calculado 24,70 ÷ (1 − 0,035 − 0,20) = 24,70 ÷ 0,765 R$ 32,29

Arredondando para R$ 33,00: taxas de R$ 1,16, custo de R$ 24,70 e lucro de R$ 7,14 por caixa (21,6%). Em 200 caixas, R$ 1.428 de lucro no mês, além dos R$ 2.000 de mão de obra já embutidos no custo. O markup ficou em 1,31: para ter 20% de margem sobre o preço, foi preciso aplicar 31% sobre o custo.

Agora os erros. Dobrar o material (R$ 12,70) dá R$ 25,40; descontados 3,5% de taxas (R$ 0,89), sobram R$ 24,51, abaixo do custo de R$ 24,70. A vendedora trabalha, recebe os R$ 10 da hora e perde R$ 0,19 por caixa. Aplicar “20% sobre o custo” dá R$ 29,64; após R$ 1,04 de taxas, o lucro é R$ 3,90, ou 13,2% do preço, e não 20%.

Exemplo de serviço: quanto cobrar por hora

Em serviço, o custo direto é pequeno; o que pesa são o seu tempo e as horas que não podem ser cobradas de ninguém. Tome uma fotógrafa autônoma que quer R$ 4.500 líquidos por mês.

  • Custos fixos mensais (desgaste de câmera e lentes, software, celular, transporte, marketing, DAS de R$ 86,05): R$ 1.200.
  • Total a cobrir: R$ 4.500 + R$ 1.200 = R$ 5.700.
  • Horas disponíveis: 160. Horas faturáveis (ensaio e edição): 80. O resto é orçamento, deslocamento e administração.
  • Valor da hora: R$ 5.700 ÷ 80 = R$ 71,25, arredondado para R$ 72.

Um ensaio de 2 horas com 3 horas de edição custa 5 × R$ 72 = R$ 360. Se o cliente paga no cartão a 3,5%, o preço vira R$ 360 ÷ 0,965 = R$ 373, e a tabela fecha em R$ 375. Quem divide os R$ 5.700 pelas 160 horas cobra R$ 36, vende as mesmas 80 horas e termina o mês com R$ 2.880, metade da meta.

A hora é o piso, não o teto: um pacote fechado (“ensaio com 20 fotos editadas”) cobra pelo resultado e premia a sua eficiência.

Ponto de equilíbrio, promoção e reajuste

Quantas unidades para pagar as contas fixas

Ponto de equilíbrio é a quantidade que cobre os custos fixos. Calcule a margem de contribuição por unidade (preço menos custos variáveis) e divida os fixos por ela. No brigadeiro a R$ 33: 33 − 9,50 − 3,20 − 10,00 − 1,16 = R$ 9,14 por caixa. R$ 400 ÷ 9,14 = 44 caixas.

Nas primeiras 44 caixas do mês, a produtora paga gás, energia e DAS; o lucro começa na 45ª. Se o mês fecha em 30 caixas, o rateio de fixos sobe de R$ 2,00 para R$ 13,33 por caixa e o preço teria de ser outro.

O preço promocional que zera a margem

Um desconto de 20% na caixa de R$ 33 leva o preço a R$ 26,40. As taxas caem para R$ 0,92, o custo continua R$ 24,70 e o lucro cai para R$ 0,78. Para ganhar no mês o mesmo que antes, seria preciso vender nove vezes mais caixas. Promoção só vale quando o custo unitário cai junto (compra maior de insumo, produção em lote) ou quando abre um pedido recorrente.

Quando reajustar

Revise a planilha a cada três meses e sempre que um insumo principal subir. Se ingredientes e embalagem ficarem 10% mais caros, o material sobe R$ 1,27 e o preço calculado sobe R$ 1,66 (1,27 ÷ 0,765), porque as porcentagens incidem sobre o novo preço. Reajustes pequenos e frequentes são absorvidos; um salto de 25% depois de dois anos parados, não. Entenda o mecanismo em o que é inflação e como proteger seu dinheiro.

Passo a passo para precificar seu produto ou serviço

  1. Liste o custo direto por unidade, dividindo cada compra pelo rendimento real.
  2. Some os custos fixos do mês, incluindo o DAS, e divida pela produção real dos últimos meses.
  3. Defina o valor da sua hora pelo salário desejado e pelas horas produtivas, e meça os minutos que cada unidade consome.
  4. Liste as porcentagens sobre o preço: taxa de cartão, comissão de marketplace, Simples Nacional (alíquota inicial de 4% no comércio e 6% em serviços do Anexo III; o MEI paga valor fixo e não entra aqui).
  5. Escolha a margem, aplique a fórmula, arredonde para cima e calcule o ponto de equilíbrio.
  6. Compare com o mercado só depois. Se ficar acima, decida entre reduzir custo, mudar o posicionamento ou vender menos com margem.

Valor percebido, posicionamento e teste de preço

A fórmula dá o piso. O teto vem do que o cliente percebe: embalagem, apresentação, prazo, atendimento, história do produto. Um brigadeiro em caixa bonita, com sabores que ninguém mais faz, vende a R$ 45 para um público que não compraria a R$ 33 em saquinho. Teste preço com método: mude um valor por vez, por duas ou três semanas, e anote lucro total, não só quantidade. Os demais tropeços de início estão em os erros mais comuns de quem começa a empreender.

Perguntas frequentes

Qual é a fórmula para calcular o preço de venda?

Preço = custo unitário ÷ (1 − (% taxas + % impostos + % lucro)). O custo unitário soma material, mão de obra e fixos rateados; no denominador entram só os itens que são porcentagem do preço.

Qual a diferença entre margem de lucro e markup?

Markup é o multiplicador aplicado sobre o custo; margem é a fatia do preço que sobra como lucro. Para 20% de margem sobre o preço com 3,5% de taxas, o markup precisa ser 1,31 (31% sobre o custo).

Como calcular quanto cobrar por hora de trabalho?

Some o salário mensal desejado aos custos fixos do negócio e divida pelas horas que você consegue faturar, não pelas disponíveis. Quem trabalha sozinho fatura de 50% a 70% do tempo. Com R$ 5.700 a cobrir e 80 horas faturáveis, a hora sai a R$ 71,25.

O MEI entra no cálculo do preço como imposto?

Entra como custo fixo, não como porcentagem: em 2026 o DAS é de R$ 82,05 por mês no comércio e indústria e R$ 86,05 em serviços, e não muda com o faturamento. Divida pela produção do mês e some ao custo unitário. Já o Simples Nacional, quando a empresa deixa de ser MEI, é percentual da receita e vai para o denominador.

O que levar deste artigo

Preço não é chute nem cópia: é custo completo dividido pelo que sobra do preço depois das porcentagens. Pague o seu tempo, rateie os fixos pela produção real, use margem sobre o preço e conheça o ponto de equilíbrio antes de qualquer promoção. Se ainda está escolhendo o que produzir, confira ideias de negócios para começar com até R$ 1.000 em casa e aplique esta planilha antes da primeira compra de insumo.

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