Finanças do casal depois dos 40: aposentadoria, seguros e herança

Guia Recomeço 40+ · Parte 3 de 3
Amor maduro, dinheiro organizado: o plano do casal 40+
Juntar as vidas depois dos 40 envolve aposentadoria, plano de saúde, imóvel e, muitas vezes, filhos de outras relações. Veja como organizar tudo para proteger quem você ama — e a você mesmo.
  • Conta conjunta, separada ou híbrida: o modelo que evita brigas
  • Pensão por morte, seguro de vida e previdência privada
  • Plano de saúde, imóvel e herança sem conflito na família
Mulher loira sorrindo com um girassol em um campo de girassóis
Foto ilustrativa: Vika Glitter / Pexels

Nas duas primeiras partes deste guia, você viu como conhecer alguém com segurança e o que muda no seu patrimônio quando o relacionamento fica sério. Esta última etapa é a mais prática: como organizar o dinheiro do casal para que a relação tenha tranquilidade hoje e proteção amanhã.

Depois dos 40, o planejamento tem particularidades. A aposentadoria está mais perto, o plano de saúde fica mais caro a cada faixa de idade e, muitas vezes, há filhos de outra união que também precisam ser protegidos.

Primeiro passo: a conversa sobre dinheiro

Antes de abrir conta conjunta ou comprar um imóvel juntos, vale uma conversa franca — sem julgamentos — sobre:

  • a renda de cada um e a estabilidade do trabalho;
  • dívidas, score de crédito, empréstimos consignados e cartões de crédito;
  • pensões pagas ou recebidas e despesas com filhos;
  • patrimônio: imóveis, investimentos, empresa;
  • objetivos: quando e como cada um quer se aposentar, onde morar, viagens.

Para estruturar essa conversa, veja o nosso plano financeiro em casal em 8 passos.

Conta conjunta, separada ou híbrida?

Não existe modelo certo; existe o que funciona para o casal. Os três mais comuns:

Tudo junto
Toda a renda vai para a mesma conta. É simples, mas exige muita afinidade de hábitos de consumo.
Tudo separado
Cada um paga uma parte das contas. Preserva a autonomia, mas pode passar a sensação de “cada um por si”.
Híbrido
Conta conjunta para as despesas da casa e contas individuais para o resto. Costuma funcionar bem para quem já chega com patrimônio e filhos.

A divisão proporcional à renda costuma ser a mais justa. Exemplo: se ele ganha R$ 8.000 e ela, R$ 4.000, a renda do casal é de R$ 12.000 — ele responde por dois terços e ela, por um terço. Com R$ 4.500 de despesas da casa, ele contribui com R$ 3.000 e ela, com R$ 1.500.

Conta conjunta e dívidas
Se um dos titulares de uma conta conjunta tiver uma dívida cobrada na Justiça, o STJ entende que só a parte dele no saldo pode ser penhorada — e, sem prova em contrário, presume-se que o dinheiro pertence aos dois em partes iguais (Corte Especial, REsp 1.610.844/BA, 2022).

Montem também uma reserva de emergência do casal, equivalente a alguns meses das despesas da casa. Veja quanto dinheiro ter na reserva de emergência.

Pensão por morte do INSS: por que formalizar a união

Cônjuges e companheiros(as) são dependentes do segurado do INSS e podem receber pensão por morte. Desde 2015, porém, a duração do benefício depende de três fatores: o número de contribuições de quem morreu, o tempo de casamento ou união estável e a idade de quem fica.

Se o segurado tinha menos de 18 contribuições mensais ou se a união começou menos de 2 anos antes do óbito, a pensão dura apenas 4 meses — a exigência não se aplica quando a morte decorre de acidente ou de doença profissional ou do trabalho. Cumpridos os requisitos, a duração segue a idade do(a) viúvo(a) na data do óbito:

Idade do cônjuge ou companheiro(a)Duração da pensão
Menos de 22 anos3 anos
De 22 a 27 anos6 anos
De 28 a 30 anos10 anos
De 31 a 41 anos15 anos
De 42 a 44 anos20 anos
45 anos ou maisVitalícia

Tabela em vigor desde janeiro de 2021 (Portaria ME nº 424/2020).

Para quem forma um casal depois dos 40, isso significa que, em regra, a pensão da viúva ou do viúvo com 45 anos ou mais é vitalícia — desde que os requisitos de contribuição e de tempo de união estejam cumpridos.

Valor: para óbitos a partir de novembro de 2019, a pensão corresponde a 50% da aposentadoria que o segurado recebia (ou a que teria direito por incapacidade permanente), mais 10% por dependente, até 100%. Uma viúva sem outros dependentes recebe, portanto, 60%. Para simular o benefício de base, veja como calcular o valor da aposentadoria do INSS e as regras da aposentadoria por idade em 2026.

Como provar a união estável para o INSS
A lei exige início de prova material contemporânea dos fatos, produzida no máximo 24 meses antes do óbito; testemunhas, sozinhas, não bastam (art. 16, § 5º, da Lei 8.213/1991). Escritura de união estável, conta conjunta, dependência no plano de saúde ou no Imposto de Renda e comprovantes de mesmo endereço ajudam.
Mulher morena sorrindo durante um piquenique a dois no campo
Foto ilustrativa: Gustavo Fring / Pexels

Seguro de vida: proteção rápida e fora do inventário

O seguro de vida é uma das formas mais simples de garantir dinheiro para quem fica, sem esperar o inventário. Desde dezembro de 2025 está em vigor a Lei 15.040/2024, o novo marco legal dos contratos de seguro, com regras importantes para o planejamento do casal:

  • Beneficiário livre: você pode indicar quem quiser — a companheira, os filhos de outra relação ou os dois, em percentuais (art. 113) — e trocar a indicação depois (art. 114).
  • Não é herança: o capital pago em razão da morte não é considerado herança para nenhum efeito (art. 116).
  • Sem beneficiário indicado: metade vai para o cônjuge e o restante, para os demais herdeiros (art. 115).
Erro comum depois de um divórcio
Esquecer a ex-mulher como beneficiária do seguro de vida ou da previdência privada. Ao começar uma nova relação, revise todas as apólices e planos.

Ao comparar seguros, olhe além do preço: coberturas para morte, invalidez e doenças graves, carências, exclusões e se o capital é suficiente para cobrir alguns anos das despesas de quem depende de você. Como o preço costuma subir com a idade, vale fazer essa comparação o quanto antes.

Previdência privada (PGBL e VGBL) na sucessão

Além de complementar a aposentadoria do INSS, os planos de previdência privada permitem indicar beneficiários que, em regra, recebem os recursos diretamente da seguradora, sem passar pelo inventário.

  • PGBL: as contribuições podem ser deduzidas em até 12% da renda bruta tributável na declaração completa do Imposto de Renda, para quem também contribui para o INSS ou outro regime oficial. O imposto incide sobre o valor total no resgate ou na renda.
  • VGBL: não tem dedução, e o imposto incide apenas sobre os rendimentos. Costuma servir a quem faz a declaração simplificada ou já passou do limite de 12%.

Em dezembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal decidiu (Tema 1.214) que não incide ITCMD, o imposto estadual sobre heranças, no repasse de valores de PGBL e VGBL aos beneficiários quando o titular morre. Para escolher entre os dois, veja previdência privada: PGBL ou VGBL; para uma renda complementar com títulos públicos, conheça o Tesouro RendA+.

Plano de saúde a dois depois dos 40

O plano de saúde costuma ser uma das maiores despesas do casal maduro. Pontos para planejar:

  • Dependente no plano: cônjuges e companheiros(as) podem ser incluídos como dependentes, conforme as regras do contrato. Na união estável, a operadora costuma pedir comprovação, como a escritura. Em planos empresariais, incluir o dependente dentro do prazo previsto no contrato pode evitar carências — confirme com o RH.
  • Faixas etárias: nos planos contratados a partir de 2004, há 10 faixas de idade, com mudança de preço aos 19, 24, 29, 34, 39, 44, 49, 54 e 59 anos (Resolução Normativa ANS nº 63/2003). O valor da última faixa pode chegar a seis vezes o da primeira. Depois dos 59 não há novos aumentos por idade, e o Estatuto da Pessoa Idosa proíbe cobrar valores diferenciados de quem tem 60 anos ou mais em razão da idade.
  • Carências máximas da Lei 9.656/1998: 24 horas para urgência e emergência, 300 dias para parto e 180 dias para os demais casos. Para doenças e lesões preexistentes, pode haver cobertura parcial temporária de até 24 meses.
  • Portabilidade de carências: ao trocar de plano, é possível aproveitar as carências já cumpridas, se os requisitos da ANS forem atendidos.
  • Reajuste anual: nos planos individuais e familiares, o teto é definido pela ANS; nos coletivos, o índice é negociado entre a operadora e a empresa ou entidade contratante.

Imóvel: comprar juntos, morar na casa de um ou alugar?

  • Morar no imóvel que já era seu: na comunhão parcial, o imóvel comprado antes da união continua sendo só seu. Mas benfeitorias feitas durante a união — uma reforma, por exemplo — podem entrar na divisão (art. 1.660, IV, do Código Civil). Guarde notas e comprovantes de quem pagou o quê.
  • Comprar juntos: no financiamento imobiliário, o casal pode somar as rendas (composição de renda) e, cumpridas as regras, usar o FGTS dos dois. Registre na escritura o percentual de cada um, principalmente se um der uma entrada maior.
  • Seguro do financiamento: o seguro de morte e invalidez permanente (MIP), obrigatório no financiamento habitacional, quita o saldo devedor na proporção da renda de cada um informada no contrato. Vale conferir essa proporção.

Antes de assinar, compare os sistemas de amortização: veja financiamento imobiliário: SAC ou Price.

Herança com filhos de outra união: 4 ferramentas

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FerramentaComo ajudaAtenção
TestamentoDefine o destino da parte disponível: metade do patrimônio, quando há herdeiros necessários.O testamento público é feito no cartório de notas; a outra metade (a legítima) é dos herdeiros necessários.
Seguro de vidaO capital vai direto aos beneficiários indicados, fora do inventário.Mantenha os beneficiários atualizados.
Previdência privadaBeneficiários indicados no plano recebem, em regra, sem inventário e sem ITCMD.Revise a indicação a cada mudança na família.
Doação em vidaPode ser feita com reserva de usufruto: os filhos recebem a propriedade e você continua usando o bem.Incide ITCMD, com alíquotas progressivas definidas por cada estado; é preciso respeitar a legítima.

Para patrimônios maiores, há ainda estruturas como a holding familiar, que exigem a análise de um especialista em planejamento sucessório.

Dois lembretes importantes
No regime da separação convencional, o cônjuge também é herdeiro (veja a Parte 2). E, desde a Resolução 571/2024 do CNJ, o inventário pode ser feito em cartório mesmo com herdeiros menores ou incapazes, em condições específicas.

Checklist financeiro do casal 40+

  • Conversa sobre renda, dívidas, pensões e objetivos feita — sem julgamentos.
  • Modelo de contas definido: junto, separado ou híbrido.
  • Reserva de emergência do casal montada.
  • União formalizada por escrito, com regime de bens escolhido.
  • Beneficiários do seguro de vida e da previdência atualizados.
  • Dependentes incluídos no plano de saúde.
  • Imóvel com os percentuais de cada um definidos na escritura.
  • Testamento feito, se houver filhos de outra relação.
  • Documentos importantes guardados em local conhecido pelos dois.

Perguntas frequentes

A companheira pode ser dependente no plano de saúde?

Sim, na maioria dos contratos, desde que a união estável seja comprovada conforme as regras da operadora — normalmente com escritura ou declaração.

Seguro de vida entra no inventário?

Não. Pela Lei 15.040/2024, o capital pago em razão da morte não é considerado herança. Ele vai direto para os beneficiários indicados.

Se eu deixar ex-mulher com pensão alimentícia e uma companheira, quem recebe a pensão do INSS?

As duas. O ex-cônjuge que recebia pensão de alimentos concorre em igualdade de condições com o cônjuge ou a companheira atual (art. 76, § 2º, da Lei 8.213/1991).

Preciso de advogado para fazer testamento?

Não é obrigatório para o testamento público, que é lavrado pelo tabelião no cartório de notas. Mas a orientação de um advogado ajuda a respeitar a parte dos herdeiros necessários e a evitar disputas.

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Fontes consultadas

Conteúdo informativo, elaborado com base nas fontes acima (consultadas em setembro de 2026). Não substitui a orientação de advogado, contador ou planejador financeiro. As fotos são ilustrativas, de bancos de imagens gratuitos (Pexels e Unsplash); as pessoas retratadas não têm relação com o conteúdo desta página.