O teto do INSS em 2026 é R$ 8.475,55, e a maior parte dos aposentados recebe muito menos que isso. Quem quer viver com folga depois dos 60 precisa de uma segunda renda, e o Tesouro RendA+ foi criado exatamente para isso.
O título parece complicado à primeira vista: datas de conversão, 240 parcelas, custódia que às vezes é zero, marcação a mercado. Mas a mecânica é simples quando se entende cada fase.
Este artigo explica como o Tesouro RendA+ funciona, o que custa, qual é o risco de sair antes da hora e, com as contas abertas, quanto investir por mês para ter R$ 3.000 a partir de 2050.

O que é o Tesouro RendA+ e como ele funciona
O Tesouro RendA+ Aposentadoria Extra é um título público federal, tecnicamente uma NTN-B1, vendido pelo Tesouro Direto desde 30 de janeiro de 2023. Ele rende IPCA mais uma taxa fixa, como o Tesouro IPCA+, mas devolve o dinheiro de outro jeito.
Há duas fases. Na acumulação, você compra frações do título ao longo dos anos e o valor cresce com a inflação mais a taxa contratada, sem receber nada no meio do caminho. Na conversão, a partir da data escolhida, o Tesouro deposita 240 parcelas mensais, durante 20 anos, todas corrigidas pelo IPCA.
Cada parcela devolve uma fatia do principal mais os juros. Ao final da 240ª parcela, o título acaba. Ele não é vitalício, e esse é o ponto mais importante para o planejamento.
O investimento mínimo é a fração de 1% de um título, cerca de R$ 30. Não há obrigação de aportar todo mês, embora seja possível programar compras automáticas.
As datas de conversão disponíveis e as taxas de setembro de 2026
Existem oito versões do título, com datas de conversão de cinco em cinco anos. Você escolhe o ano em que quer começar a receber. As taxas abaixo são as de compra em 17/09/2026, um dia após o Copom cortar a Selic para 13,75%; elas mudam todos os dias.
| Título | Início dos pagamentos | Taxa em 17/09/2026 |
|---|---|---|
| RendA+ 2030 | 2030 | IPCA + 7,43% a.a. |
| RendA+ 2035 | 2035 | IPCA + 7,33% a.a. |
| RendA+ 2040 | 2040 | IPCA + 7,22% a.a. |
| RendA+ 2045 | 2045 | IPCA + 7,15% a.a. |
| RendA+ 2050 | 2050 | IPCA + 7,08% a.a. |
| RendA+ 2055 | 2055 | IPCA + 7,03% a.a. |
| RendA+ 2060 | 2060 | IPCA + 7,02% a.a. |
| RendA+ 2065 | 2065 | IPCA + 7,02% a.a. |
Juro real acima de 7% ao ano é um patamar alto na comparação histórica do Brasil. Com a inflação de 4,22% acumulada em 12 meses até agosto de 2026, a rentabilidade nominal passa de 11% ao ano, e a inflação futura entra automaticamente. A taxa e o preço do dia estão na página oficial do Tesouro RendA+.
Custos: taxa de custódia, Imposto de Renda e IOF
A taxa de custódia da B3, de 0,20% ao ano nos outros títulos do Tesouro Direto, tem regra própria aqui. Quem leva o título até a conversão e recebe até seis salários mínimos por mês (R$ 9.726 em valores de 2026) não paga custódia em fase nenhuma. Acima desse limite, a taxa é de 0,10% ao ano só sobre o excedente. A regra está publicada nas regras do Tesouro Direto e na tabela de tarifas da B3.
A custódia só aparece se você vender antes da conversão, e ela é regressiva: 0,50% ao ano para quem vende em até 10 anos, 0,20% entre 10 e 20 anos e 0,10% acima de 20 anos, calculada sobre o período em que o título ficou na carteira. É uma penalidade desenhada para desestimular a saída precoce.
O Imposto de Renda segue a tabela regressiva da renda fixa: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 720 dias, sempre sobre o rendimento. Quem leva até a conversão está muito além dos 720 dias, então cada parcela chega com 15% retidos sobre a parte de juros; o principal devolvido não é tributado. Resgates em menos de 30 dias pagam IOF. Corretoras podem cobrar taxa própria, mas a maioria zerou essa cobrança.
Marcação a mercado: o risco de vender o RendA+ antes da hora
O Tesouro recompra o título todos os dias úteis (respeitada uma carência de 60 dias após cada compra), então liquidez existe. O problema é o preço. Antes da conversão, o RendA+ é marcado a mercado: quando as taxas de juros sobem, o preço cai; quando caem, o preço sobe.
O efeito é grande porque o prazo é longo. No RendA+ 2050, cujas parcelas vão até 2069, uma alta de 1 ponto percentual na taxa derruba o preço em cerca de 25%; no RendA+ 2030, em cerca de 10%. Quem precisa vender em um mês de taxa alta realiza perda, mesmo com o título “rendendo” no papel.
Nada disso afeta quem leva até o fim: você recebe exatamente o fluxo contratado no dia da compra, com a inflação por cima. A conclusão prática é direta: o RendA+ não é lugar para dinheiro que pode ser necessário antes da conversão. Reserva de emergência fica em produto de liquidez diária sem oscilação, como comparamos em Tesouro Selic ou CDB com liquidez diária.

Quanto investir por mês para ter R$ 3.000 a partir de 2050: exemplo numérico
A conta tem dois passos, e ambos podem ser feitos em valores de hoje, porque a correção pelo IPCA é automática. As premissas: taxa de IPCA + 7,08% ao ano (RendA+ 2050 em 17/09/2026) valendo para todos os aportes, 23 anos de acumulação (de outubro de 2026 a dezembro de 2049) e aportes mensais reajustados pela inflação.
Passo 1: quanto precisa haver na data da conversão. Durante os 20 anos de pagamento, o saldo ainda não devolvido continua rendendo a taxa contratada. Por isso, para pagar 240 parcelas de R$ 3.000, não são necessários R$ 720 mil, e sim o valor presente dessas parcelas à taxa real de 7,08% ao ano (0,5717% ao mês): cerca de R$ 391 mil em dinheiro de hoje.
Passo 2: quanto aportar por mês para chegar lá. Com a mesma taxa por 276 meses, cada R$ 1 aportado mensalmente vira R$ 668,68 no fim. Dividindo R$ 391 mil por esse fator, o aporte necessário é de cerca de R$ 585 por mês, corrigido pela inflação a cada ano. Ao todo, você desembolsaria R$ 161 mil em valores de hoje para receber R$ 720 mil, também em valores de hoje.
| Renda mensal desejada (valores de hoje) | Capital na conversão | Aporte mensal por 23 anos | Total aportado |
|---|---|---|---|
| R$ 1.000 | R$ 130 mil | R$ 195 | R$ 54 mil |
| R$ 2.000 | R$ 261 mil | R$ 390 | R$ 108 mil |
| R$ 3.000 | R$ 391 mil | R$ 585 | R$ 161 mil |
| R$ 5.000 | R$ 652 mil | R$ 975 | R$ 269 mil |
O tempo pesa mais que o valor. Para os mesmos R$ 3.000 a partir de 2050, quem começa hoje aporta R$ 585 por mês; quem começa em 2036, com 14 anos pela frente, precisa de R$ 1.393. Quem escolhe o RendA+ 2060, com 33 anos de acumulação, resolve com R$ 261.
Três ressalvas. A renda calculada é bruta: o IR de 15% sobre a parte de juros de cada parcela reduz o valor líquido. A taxa de hoje vale só para o que você compra hoje; aportes futuros entram pela taxa do dia. E o simulador oficial do Tesouro Direto faz a conta com o preço exato do título, então use-o antes de definir o valor.
Tesouro RendA+, previdência privada, INSS ou dividendos: qual complementa melhor
| Critério | Tesouro RendA+ | Previdência privada (PGBL/VGBL) | INSS | Carteira de dividendos |
|---|---|---|---|---|
| Duração da renda | 20 anos fixos | Conforme o plano; pode ser vitalícia | Vitalícia | Enquanto houver patrimônio e lucros |
| Garantia | Tesouro Nacional | Seguradora; sem FGC | Governo | Nenhuma; renda variável |
| Custo anual | Custódia zero até 6 salários mínimos de renda | Taxa de administração | Contribuição de 7,5% a 20% | Corretagem e emolumentos |
| Imposto | 15% sobre os juros no longo prazo | Regressiva chega a 10% após 10 anos; PGBL deduz até 12% da renda | IR conforme a tabela | Conforme a regra vigente |
As opções não competem; elas se somam. O INSS é a única renda vitalícia e reajustada por lei, e as regras para recebê-lo estão em aposentadoria por idade em 2026. A previdência privada faz sentido sobretudo para quem declara o IR pelo modelo completo e usa a dedução do PGBL, tema de PGBL ou VGBL: qual escolher. Ações pagadoras de dividendos podem render mais, mas sem garantia de valor nem de fluxo, como mostra o cálculo de quanto é preciso ter para viver de dividendos.
O RendA+ fica no meio do caminho: mais previsível que a bolsa, mais barato que a maioria dos fundos de previdência e com prazo definido. Quem quer renda depois dos 20 anos de pagamento precisa de outra fonte para o período seguinte.
Como decidir se o Tesouro RendA+ faz sentido para você
- A reserva de emergência já está montada em produto de liquidez diária. Sem isso, qualquer imprevisto vira venda antecipada com prejuízo.
- Faltam pelo menos 10 anos até a data em que você quer começar a receber. Prazos curtos reduzem o efeito dos juros compostos.
- A renda planejada cabe em até seis salários mínimos por mês, o que zera a custódia.
- Você quer previsibilidade e não quer acompanhar o mercado. Se prefere escolher indexador e prazo, compare com o Tesouro IPCA+ em Tesouro IPCA+, prefixado ou Selic: qual escolher.
- Você declara o IR pelo modelo completo e tem margem para deduzir 12% da renda: compare o RendA+ com um PGBL de taxa baixa, porque a dedução pode compensar.
Perguntas frequentes
Posso resgatar o RendA+ antes da data de conversão?
Pode, em qualquer dia útil depois da carência de 60 dias de cada aporte, pelo preço de mercado do dia, inclusive em parte. Além da oscilação de preço, você paga a custódia regressiva (0,50%, 0,20% ou 0,10% ao ano, conforme o tempo de carteira) e o IR sobre o rendimento.
O Tesouro RendA+ rende mais que o Tesouro IPCA+?
As taxas andam próximas, porque os dois são indexados ao IPCA e têm prazos parecidos. Em 17/09/2026, o IPCA+ 2050 pagava 7,26% e o RendA+ 2050, 7,08%. A diferença está no fluxo: o IPCA+ devolve tudo no vencimento; o RendA+ devolve em 240 parcelas, sem que você precise vender aos poucos.
Preciso investir todo mês?
Não. Você compra quando e quanto quiser, a partir de cerca de R$ 30. O aporte mensal do exemplo é uma forma de chegar ao objetivo, não uma exigência. Aportes no início pesam mais que aportes tardios.
A renda do RendA+ é vitalícia?
Não. São exatamente 240 parcelas, ou 20 anos. Quem escolhe o RendA+ 2050 recebe de 2050 até o fim de 2069. Para cobrir a vida depois disso, você pode escalonar títulos com datas diferentes ou contar com outras fontes.
O que levar deste artigo
O Tesouro RendA+ transforma aportes de longo prazo em 240 parcelas mensais corrigidas pela inflação, com garantia do Tesouro Nacional e custódia zero para quem leva até o fim e recebe até seis salários mínimos. Com as taxas de setembro de 2026, perto de IPCA + 7% ao ano, R$ 585 por mês durante 23 anos bastariam para R$ 3.000 mensais em valores de hoje a partir de 2050.
O título só falha quando você precisa do dinheiro antes da hora. Monte a reserva, escolha a data, use o simulador oficial e trate os aportes como conta fixa.

